Terça-feira, 26 de Junho de 2012
Correntes grossas…
Grossas correntes…
Gestos quietos, que embalam o universo inteiro
Em sono, onde não se dorme.
Onde não se acorda, porque se não dormiu.
(Mas é sempre bom ser-se embalado.)
Viagens sem partida, onde se anseia a chegada.
Feitas em comboios sem locomotiva,
Sem ninguém para os guiar.
(Mas mesmo assim, vem o revisor
Verificar se o bilhete foi comprado.)
Tirámos todos, bilhete, para ir a nenhum lado.
Um dia nebulado, noite negra sem estrelas…
E no horizonte, ergue-se a cidade.
Luzes, prédios altos, jardins abandonados.
Casas…
Onde se come, onde se dorme, onde se fode…
Mas não se vive.
Objectos inanimados de diversos tamanhos.
Desço á terra depois de grande devaneio,
Limpando lagrimas de meu rosto.
És tu, aquela por quem eu anseio.
Ansiada por meu coração decomposto.
Olho, estiolo na discrepância
Que existe, entre os meus sonhos e a realidade.
Nunca te quis, por ganância,
Mas pelo que sinto ser verdade.
Não te falo agora daquele amor,
Que só existe nos contos de fadas.
Este, é tão real como a dor,
E como todas estas horas amarguradas.
Elevei-te várias vezes á perfeição
Sem mostrar qualquer tipo de arrependimento.
Afinal, és como a bênção,
Que sana em mim o sofrimento.
Desconheço e temo o futuro,
Não sei o que ele vai trazer.
Mas temo que ele erga um muro,
Pelo qual nem te posso ver.
Nunca te vou chegar perto,
Nunca te vou poder abraçar.
Nunca tudo isto deixará de ser deserto,
Nem os fogos que ardem em mim se irão apagar.
Nós os dois, seremos sempre dois,
Permaneceremos distantes de sermos só um.
E como nós os dois, seremos sempre dois,
Nada disto te fará sentido algum.
Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
Terceiro planeta do sistema solar,
Esfera cintilante, de um azul celeste.
Estão sempre prontos para te violar,
Aqueles a quem abrigo deste.
Baixam-te tuas vestes…
E são biliões para te sodomizar.
Não interessa tudo o que lhes fizeste…
Tem o direito de te estuprar.
E agora falando num típico “bom português”:
Estão sempre prontos para te foder!
E nem esperam sua vez.
E fodem-te, até tudo em ti morrer.
Ganb-bang mundial,
Sempre tu, Terra, a seres copulada.
E nem se sentem mal,
Por seres constantemente conspurcada.
É-lhes um direito adquirido
E corrompe-te sem punição.
Não sei por quem lhes terá sido oferecido,
Ou se é só mesmo sua depravação.
Terça-feira, 19 de Junho de 2012
Por vezes sinto o chão ruir debaixo dos meus pés,
E o céu desabar sobre meus ombros.
Sinto, falta do que tu me és…
Quando soterrado em escombros.
(Não fazes ideia do teu valor para mim,
Nem eu mesmo o consigo quantificar.
Mas talvez seja melhor assim…
Há coisas que não se conseguem observar.)
Dão-se desmoronamentos diários
Neste meu mundo em destroços.
E as horas, e os segundos são meus adversários,
Opositores, de meus esforços.
Tudo se desmorona a minha volta,
Sem hipótese de se voltar a erguer.
E até o céu contra o chão se revolta,
Pondo as ruínas arder.
No meio de todo o caos, uma certeza…
Um algo maior que me domina.
Temo é que com toda a minha fraqueza,
Nem tu me salves da completa ruína.
Acorda animal!
Serás sempre besta, nunca bestial.
A teus olhos, pensas ser alguém…
Para os outros és nada, és ninguém.
Eu não sou melhor que tu,
Nem sei se chego a ser igual.
Sou tão besta como Belzebu
Tirando a parte de não fazer o mal.
Mas que interessa isso nos tempos correntes?
Que diferença faz?
O mundo pertence aos valentes
E tu, só de ser besta és capaz.
Amor-próprio, deixei de o ter…
Sou o meu mais acérrimo crítico.
Sou a besta que podeis ver,
Com a bestialidade como poder mítico.
Nem me conforto, contrariando-me…
Não desminto a besta que sou.
Daqui levanto-me…
Deito-me… na réstia de humanidade que em mim sobrou
Pinta a cara…
Esconde o rosto.
Nada é, como ele imaginara,
Pintura rápida…disfarça o desgosto.
Em sua fronte, um sorriso pintado.
No corpo, a roupa que exulta alegria.
Tudo brilhantemente falseado,
Para esconder dos outros, sua agonia.
Encarna a personagem de um idiota…
Suporta os chapadões oferecidos.
Para os outos, motivo de chacota,
Mesmo quando seus olhos estão enegrecidos.
E o palhaço cai ao chão,
Esbofeteado e escarnecido…
Rejubila a multidão,
Pelo espectáculo oferecido.
Quinta-feira, 14 de Junho de 2012
Velho trirreme da busca incessante
Remam-te loucos, em direcções opostas.
Uns buscam o poente, outros o levante,
Entre si, vão virando costas.
Rumos incertos tomados,
Por uma absoluta certeza.
Homens certos, mas enganados
Pela força da sua firmeza.
A perfeição impossível de atingir,
Lhes mantem os olhos fechados.
Estão acorrentados, não conseguem fugir.
O sonho os mantém subjugados.
E buscam e rebuscam por tudo o quanto é lugar,
Estão destinados á falha,
Mas não percebem, e continuam a buscar.
Já não há quem lhes valha…
E por algo irreal continuam a lutar.
Faz frio…
E o sol não me aquece.
Meu coração…
Aos poucos se enrijece.
E os olhos…
A, meus olhos, tudo se entristece.
O desfalecimento…
O antigo desfalecimento… me desfalece.
A sadia loucura…
Em ímpetos me enlouquece.
A minha força…
Sem forças, meu ser enfraquece.
A mágoa…
Em mim, teias tece.
A falta…
Tanta falta, que me endoidece.
Faz frio…
E nem o fogo em que me ardo me aquece.
Quinta-feira, 7 de Junho de 2012
Os outros…
Os outros todos…
Os outros todos, sem excepção!
São melhores que tu e eu.
São sempre mais justos, mais educados… melhores que nós.
Escrevo directamente para ti, que agora perdes tempo a ler-me… não me leias… lê outra coisa… outra coisa qualquer de um dos outros.
Eles são melhores do que eu… melhores que tu… melhores que tudo.
Os seus defeitos são virtudes, suas virtudes inexistentes são dádivas…
Os outros são fortes, e razão é sempre sua… e é inquestionável.
Os outros não erram… como eu e tu…os outros dizem sempre o que esta certo, os outros não mentem, porque a boca deles é a verdade.
Os outros…
Os outros têm tudo, mesmo não tendo nada, mesmo sendo vazios por dentro, exortam o que há de bom (e de melhor ainda) dentro si.
Os outros não nos magoam… nós é que temos inveja de não ser os outros.
Na cabeça dos outros, na realidade dos outros, eu e tu somos fruto da decadência, do mal, da loucura…
E como têm sempre razão… eu dou-lhes a razão toda…
Mas mesmo assim sendo… prefiro ser dos outros que não são os outros.
O vento sopra-me na face
E no céu, um desvanecido rasto de avião.
A recordação em mim renasce…
De há dois anos, e do passado verão.
Parece-me diferente, agora, este lugar…
As montanhas, são as mesmas de antes…
E o rio… continua por aqui, a correr para o mar.
Os mesmos barcos passantes…
Tudo se muda.
Mas tudo fica igual
Escrevo… com voz muda
Que sinto este lugar desigual.
Estou perplexo com a mudança,
Que por estes lados se deu…
Já nem aqui sinto esperança
Já nem aqui me sinto eu.
Meu Éden morto!
Mais um banal lugar,
Onde finco em ficar absorto
Sozinho… com o pensar.